Fortuna Crítica em Ensaios sobre Livros de Yasmin Nadaf

 

1. Sob o Signo das Flores. Discurso de recepção à acadêmica Yasmin Jamil Nadaf, por João Antônio Neto*, na Academia Mato-Grossense de Letras, em 27 de outubro de 1995. (Cadeira 38). Publicado no D.O. Cultura (Suplemento do Diário Oficial). Cuiabá, 28/12/1995,p.7.

 

Permitam-me que comece falando de flores, o que é particularmente delicioso porque, falar de flores, é perfumar as palavras e colorir o pensamento...

Ao demais, hoje, a flor é o tema e a personagem principal desta noite encantadora...

A flor-tema é a Violeta, sob cujo patrocínio a recepiendária construiu sua obra inovadora e substantiva – e a flor-personagem é o Jasmim, cujo nome chegou à Língua Portuguesa, emigrado da Pérsia, e aqui está presente na pessoa de Yasmin Jamil Nadaf.

A Mulher e a Flor: eis, pois, a nossa proposição. Aliás, as duas, de alguma forma se interfundem, pois se a mulher é a reincarnação da primeira flor, a flor é a transfiguração feminina da Natureza.

É, assim, entre flores, que recebemos a professora Yasmin, a qual, neste momento, amplia e requinta o número de mulheres que engrinaldam esta Casa.

Aqui já estão Maria de Arruda Müller, Dunga Rodrigues, Ana Luiza do Prado, Vera Randazzo, Nilza Pinto Ferreira e para cá está vindo a ilustre professora Elizabeth Madureira Siqueira – tudo a provar que o papel da mulher não é somente aquele de limitar-se ao âmbito da casa e da reprodução, sem aspirar a pontos de relevo na esfera do trabalho, da cidadania e do pensamento.

E Yasmin nos demonstra de forma vigorosa o que várias mulheres de Mato Grosso fizeram e estão fazendo pela literatura mato-grossense, em alguns casos, adiantando-se aos nossos homens de letras.

A obra capital de Yasmin é a Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista, para a obtenção do título de Mestre em Letras, na área de Literaturas de Língua Portuguesa, trabalho recém-publicado no Rio de Janeiro, em grande e esmerado volume de 527 páginas, com o sugestivo título de Sob o signo de uma flor daí, minha invocação inicial.

E aqui, por sorte, retornamos à flor, e a flor é a VIOLETA, nome de uma revista cuiabana, surgida em 16 de dezembro de 1916, fundada e dirigida por mulheres de Cuiabá e especialmente dedicada à atividade das escritoras, em todos os domínios da cultura literária, artística e científica.

O livro de Yasmin, todavia, não é apenas a notícia banal de uma novidade literária arrancada ao baú das recordações – mas, uma pesquisa profunda e substancial que, além de trazer à cena da nossa cultura personagens das nossas letras, injustamente esquecidas, confere o trabalho dessas pessoas, num espectro abrangente, que vai da epistolografia ao feminismo e à teoria da literatura e das artes.

No seu esforço revelador, a autora arrolou vinte e cinco temas principais versados pelas literatas, predominantemente de Cuiabá. A obra da pesquisadora, dessa forma, inscreve-se, dentro do seu gênero, como única no nosso Estado e certamente uma raridade no panorama da literatura nacional.

E nem se diga que o livro da professora Yasmin, ao escolher como objeto de estudo a revista A VIOLETA, estaria na esteira de certo feminismo exclusivista e radical, como os que partem sistematicamente do ângulo da opressão, excludente da participação masculina.

Nada disto. E nem foi esse o pensamento das escritoras fundadoras, pois tiveram entre seus colaboradores alguns escritores conhecidos, daqui e de outros Estados, como José de Mesquita, Floriano de Lemos, Dom Aquino, Raimundo Maranhão e vários outros.

O que a professora Yasmin concebeu, e levou a cabo, foi mostrar a vitalidade cultural das nossas mulheres, a maioria professoras, ao lado dos escritores em voga. Também apresentou A VIOLETA como um quase milagre de militância, substancialidade e sobrevivência, conseguindo a façanha de viver por 34 anos, com vigor e brilho.

E neste ponto é indispensável salientar que a revista A VIOLETA era o órgão próprio e porta-voz do GRÊMIO LITERÁRIO JÚLIA LOPES, do nome da maior romancista brasileira de sua época.

O Grêmio – como a revista – é, igualmente, um prodígio de duração e funcionamento efetivo. Anteriormente, tivemos várias experiências de associações literárias, quase todas de vida passageira. Desde 1874, como chamado Gabinete de Leitura, multiplicaram-se aqui as tentativas para manter associações, sociedades, clubes, ligas, escolas, centros – todos começados sob os melhores auspícios e terminados bruscamente a meio caminho.

Com o Grêmio Júlia Lopes, foi diferente. Apesar de todos os tropeços, avançou, galhardamente, por mais de três décadas!

E, neste ponto, gostaria de ilustrar um aspecto que foi apenas aflorado, ao de leve, pela professora Yasmin (p. 28) e que eu estimaria ver mais aprofundado, pois transcende o mero caráter referencial. Refiro-me ao fato de o Grêmio Literário Júlia Lopes, de 1916, haver antecipado o Instituto Histórico de Mato Grosso, de 1919, e a Academia de Letras, de 1921.

Tal acontecimento constitui evento curioso, significativo e rico em conseqüências históricas. Ou seja: fica provado que a primeira associação literária, verdadeiramente orgânica, formal e representativa das letras matogrossenses, com caráter duradouro, possuidora de órgão próprio e programa definido, foi de mulheres da nossa sociedade, desde que os congêneres anteriores tiveram existência precária, naturalmente por falta de um impulso interior autogênito e criador, como o tivera o Grêmio feminino de 1916. O próprio Grêmio Literário Álvares de Azevedo, de 1911, teve vida fugaz, enquanto Júlia Lopes chegou a publicar mais de 300 números de sua revista!

Como se vê, o caso é para ser vivamente considerado e nem parece exagero sugerir que o Grêmio abriu o caminho para o aparecimento da própria Academia Mato-grossense de Letras. E ai está um dado que – ao que eu saiba – ninguém ainda suscitou.

São conclusões que me ocorreram no momento em que recepcionamos a professora Yasmin, animadora desses fatos da nossa história cultural.

Só por isto mereceria ela a láurea que está recebendo. Entretanto seu labor de estudiosa e pesquisadora não se resume apenas aos lances que tenho apresentado, até agora.

De há muito vem ela trabalhando no campo da análise da nossa literatura, de seus representantes e de suas produções. Além de inúmeros trabalhos de crítica literária, publicados em diversas oportunidades, em órgãos do nosso Estado e de outras Unidades da Federação – Yasmin acaba de apresentar interessante painel sobre a "Literatura Mato-grossense de Autoria Feminina, nos séculos XIX e XX", como comunicação ao VI Seminário Nacional Mulher e Literatura, (11, 12 e 13 de setembro de 1995).

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Temos recebido nesta casa poetas, jornalistas, romancistas, cronistas, historiadores, filólogos, juristas, economistas, cientistas de vários domínios e outros formadores da nossa cultura literária e científica, mas, agora, com Yasmin – pelo menos nos dias atuais – encetamos uma nova linha de cogitações. É a investigadora do fenômeno literário e artístico, espécie de arqueóloga que vai à História e daí arranca figuras entorpecidas pela névoa das omissões – ou, fazendo justiça aos novos, revelando-os a um público maior e à admiração dos apetites estéticos de hoje.

Da leitura desses trabalhos extraímos a lição de que em nossa poesia não há somente José de Mesquita, Otávio Cunha ou Dom Aquino, mas ainda, Benilde Moura, Maria Santos Costa ou Antídia Coutinho e Amália Verlangieri. Nosso jornalismo não seria só Arquimedes Pereira Lima ou Pedro Rocha Jucá, deslembrando-nos de que houve Maria Dimpina, que foi ainda a primeira mulher funcionária pública de Mato Grosso. O romance não seria exclusivo de José de Mesquita, pois apontamos agora para Tereza Albués e eu acrescentaria Aldenora de Sá Porto. Os poetas modernos não ficariam reduzidos a Silva Freire e Wladimir Dias Pino, pois já se pode apresentar Marília Beatriz, Lucinda Persona ou Selma Moussalem.

Também é verdade que pouco se fala da versátil Vera Randazzo, da erudita Guilhermina de Figueiredo, da pioneira Bartira de Mendonça, das insígnes Amélia e Tereza Lobo ou de Mariana Póvoas, sem esquecer a grande iniciadora, Leonor Galvão, por sinal, fundadora da primeira A VIOLETA de Mato Grosso, em 1897. E se ainda se comenta Maria Muller é por ser a viúva longeva de Júlio Muller; se se fala da professora Dunga é por sua vivacidade e seu piano e se se recorda Zulmira Canavarros é por suas canções e quem sabe até por causa do Mixto Esporte Clube...

Pois bem, a correção desses esquecimentos e a descoberta de novidades literárias, abrindo novos horizontes da nossa literatura, vem sendo realizadas, de forma original e douta pela nova acadêmica, através de um labor abnegado e proficiente, de alto valor técnico e humano, capaz de honrar qualquer literatura.

E a atividade de escritora especializada, de Yasmin, não se circunscreve às teses aqui referidas, pois tem-se estendido a estudos vários sobre autores diversos, como Dalton Trevisan, Nelson Rodrigues, Graciliano Ramos e Silva Freire. Além disto escreveu e publicou ensaios a respeito de teatro, educação feminina em Mato Grosso (1850-1950) e tópicos versando a literatura feminina, em nossos dias.

Yasmin é graduada em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso, com Especialização em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Paraná, e Mestre em Letras, pela Universidade Estadual Paulista.

É meu propósito ainda dizer algumas palavras de aproximação entre a substituinte e o substituído, ou seja, a acadêmica estreante e o anterior ocupante da Cadeira 38, isto é, Benedito Santana da Silva Freire.

Estou certo de que neste preciso instante, Silva Freire está aqui presente, na transparência irrevelada dos mistérios do espírito, como num transporte de magia e de sonho, para agradecer o destino que lhe deu tão ilustre sucessora e aplaudir calorosamente o sufrágio que a colocou neste cenáculo consagrador. Renovador da poesia contemporânea do Brasil e de Mato Grosso, Silva Freire combina bem com Yasmin restauradora dos verdadeiros cânones da nossa literatura e emissária emérita das forças novas que movem a nossa cultura.

Como vêem, é uma noite de encontros felizes, esta a que estamos assistindo, para a qual confluem as águas vívidas do passado, ao encontro dos amplos estuários do presente, num movimento de superação dos esquecimentos fatais que esterilizam a História e frustram os caminhos ascensionais da criatividade humana.

Bem haja, pois, o insigne da Academia em chamar ao seu regaço e agasalhar num dos seus nichos mais um dos valores autênticos do nosso engenho criador, operária da cultura, que dignifica nossa sensibilidade e o nosso pensamento.

Daí a conclusão alentadora: a recepção de titular desta categoria, confere prestígio a qualquer Instituição cultural, afastando o atrativo e a tentação das mediocridades festivas, renovando, desta forma, as forças criadoras legítimas da inteligência e do merecimento.

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E já começamos com flores, seria justo e mais harmonioso que com flores terminássemos.

Porém, que mais flores usar, comparáveis às que serviram de grinaldas e umbelas, para enfeitar esta saudação – as flores manifestadas pela Natureza e as reveladas pela Humanidade: violetas, jasmins e mulheres?...

Desse jeito, será inevitável repetir, o que certamente não deslustrará esta hora de cálidas alegrias – porque, repetir flores, é sempre inaugurar o encanto e a festa da Beleza e renovar o prazer do Deslumbramento e das Ternuras.

Assim sendo, chovam corolas e pétalas sobre tudo e todos; salve a Violeta, sob cujo signo aqui estamos – e seja benvindo o excelso Jasmim, de Yasmin, a qual há de ornamentar, de agora em diante, este próvido e afortunado Jardim das nossas Letras!

 

* João Antônio Neto é professor da UFMT, jurista, e autor de vários livros, entre eles Remanso: coletânea poética (Cuiabá: Imprensa da Universidade Federal de Mato Grosso, 1982).

 

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2. Texto de Eduardo de Faria Coutinho*, na Orelha do livro Diálogo da escrita.

Com grande sensibilidade crítica e seiva de verdadeira pesquisadora, que vira e revira arquivos e acervos em bibliotecas, academias e grêmios literários em todo o país, Yasmin Nadaf vem prestando inestimável contribuição à memória da literatura brasileira.

Depois do fascinante e minucioso estudo Sob o signo de uma flor (1993), que resgata do esquecimento o periódico A Violeta, órgão da imprensa mato-grossense voltado para a produção feminina, e do instigante Rodapé das miscelâneas (2002), em que investiga com riqueza de pormenores a especificidade e o desenvolvimento do folhetim, verificando sua ocorrência na imprensa de Mato Grosso, a autora se lança agora ao exame de Novo Mundo, focalizando nesse Diálogo da escrita: alagoanos na imprensa de Mato Grosso a contribuição dos autores alagoanos em mais este periódico mato-grossense.

Em absoluta consonância com o espírito de Novo Mundo, que, embora editado numa pequena cidade de Mato Grosso – Guiratinga –, publicava textos de intelectuais de toda parte do Brasil, da América Hispânica, da Europa e até da Ásia, Yasmin Nadaf privilegia neste livro o diálogo cultural que se travou entre dois pontos extremos do país na primeira metade do século XX – os escritores de Alagoas e a imprensa mato-grossense –, mostrando que nem sempre vigorou a tendência geral à época de as regiões isoladas geograficamente se voltarem para os grandes centros do país, o eixo Rio-São Paulo.

Neste estudo crítico, Yasmin analisa textos dos poetas e prosadores alagoanos que contribuíram para o periódico, e complementa seu trabalho com comentários sobre a fortuna crítica desses escritores no momento da publicação de seus textos, incluindo vez por outra um fragmento de uma dessas vozes críticas. Mas o interesse deste livro não se reduz a esse estudo. No final, sob a forma de anexo, a autora procede a uma seleção cuidadosamente elaborada de textos desses autores, que constitui precioso material para o conhecimento tanto da produção literária como da visão de mundo da época.

Yasmin Nadaf é, sem dúvida, uma pesquisadora de calibre, e seu texto uma bela contribuição para a preservação dessa produção que, embora nunca tenha feito parte do cânone, tem sabor e arte, e merece a divulgação que ela lhe dá.

* Eduardo de Faria Coutinho é professor da UFRJ, doutor em Literatura Comparada, e autor de vários estudos, entre eles Literatura comparada na América Latina. Ensaios (Rio de Janeiro: Ed.UERJ, 2003).

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3. Revisando páginas do passado, Lucinda Persona*, no Rosa Choque. Informativo Feminino. Cuiabá, Janeiro/2004, p.2.

Agradável constatar que, para alguns pesquisadores natos, não basta apenas pesquisar, mas dar notícias do que foi encontrado e, com isso, facilitar o acesso ao assunto e, mesmo, aos documentos da época investigada. Em certos casos, toma vulto a memória, objetivando não deixar perder o que em outros tempos foi publicado e se encontra sepultado.

Estamos falando especificamente da escritora, pesquisadora e crítica em literatura Yasmin Jamil Nadaf e de sua nova produção, cujo título Diálogo da escrita: alagoanos na imprensa de Mato Grosso (Rio de Janeiro: Lidador, 2003), dimensiona esplendidamente o trabalho realizado. Mais do que emissário de uma pesquisa, este livro representa importante resgate. O resgate de um diálogo travado num determinado momento da história, quando os meios de comunicação eram sem dúvida mais escassos e menos ágeis do que nos dias atuais.

Yasmin Nadaf, desde que defendeu sua tese de doutoramento pela Unesp, resultando na substancial obra Rodapé das Miscelâneas – o Folhetim nos Jornais de Mato Grosso (Rio de Janeiro: 7Letras, 2002), desde então, mergulhou vivamente na investigação para o pós-doutoramento. Desta vez, centrando suas buscas no jornal Novo Mundo, expediente fundado em Guiratinga, com vistas ao Intercâmbio Cultural tanto das Américas como da Europa. Durante o trabalho, voltou a detectar as vozes alagoanas na imprensa mato-grossense, assim como já havia percebido em outras coleções observadas, como no caso de A Violeta, revista idealizada e conduzida por mulheres de Mato Grosso, motivo da dissertação de mestrado da autora, convertida no livro Sob o signo de uma flor (Rio de Janeiro: 7Letras, 1993).

Ao entrar no universo mato-grossense das letras dos séculos XIX e XX, a autora constata portanto uma participação freqüente de escritores alagoanos em publicações de Mato Grosso. Descobrir detalhes desse intercâmbio, traçar um mapa literário da época e recuperar o relevante papel que as publicações tiveram, constituíram-se nos principais objetivos de um novo trabalho.

Não se pode prosseguir sem enfatizar que o livro de Yasmin Nadaf define-se pelo legítimo interesse na história da imprensa mato-grossense e, antes de mais nada, mostra que um levantamento literário acaba revelando que a alma humana sempre buscou outras almas.

Além de assinalar, muitas vezes com riqueza de detalhes, a presença dos mencionados alagoanos e seus textos, em verso ou prosa, a autora acrescenta comentários, traços biográficos, descrição do contexto cultural e pormenores que pontilharam aquelas relações literárias, localizando inclusive a primeira escrita ocorrida.

No livro, o terceiro lançado pela escritora, a linguagem é clara e subjaz a intenção de salvar do desaparecimento uma parcela da história literária oficial dos dois Estados. Na primeira parte da obra, o assunto propriamente dito é apresentado com indicação das fontes pesquisadas (Novo Mundo, A Cruz, A Violeta) e também dos escritores partícipes, configurando parte da trajetória literária de homens e mulheres de uma época, bem como seu modo de pensar, ver e sentir. Na segunda parte, constam citações e transcrições de vários textos, predominantemente poesia.

Para concluir este comentário, é justo retomar a preocupação da escritora com a historicidade das letras mato-grossenses e suas conexões. É justo insistir em sua fina sensibilidade, ponderação e competência na realização do estudo. Um livro breve, mas suficiente para desdobramentos vários. Com mais esta obra de apoio, necessária não somente àqueles que anseiam aprofundar ou completar estudos sobre imprensa e literatura em Mato Grosso, Yasmin Nadaf prossegue trabalhando para robustecer e difundir conhecimento na área. Prossegue com seus promissores garimpos ou lavras literárias, num exercício memorialístico que dá relevo às coisas da terra e, pode-se dizer, mostrando-se infinitamente sincronizada ao que diz Manoel de Barros num poema: “Carrego meus primórdios num andor./ Minha voz tem um vício de fontes./ Eu queria avançar para o começo”.

É assim que se revela esta cientista da literatura, avançando para os nascedouros; revisando as páginas do passado; buscando, através de análise sistemática, as fontes de onde jorram elementos/alimentos essenciais, os quais são generosamente compartilhados; e levando, como se fora em andores, os seus primórdios – matéria significativa para a compreensão não somente do devir – e que à coletividade pertence.

* Lucinda Persona é escritora, bióloga e professora da UFMT e da Unic. Entre seus livros publicou Por imenso gosto (São Paulo: Massao Ohno, 1995) e Tempo comum (Rio de Janeiro: 7Letras, 2009).

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4. Presença de Yasmin, Constância Lima Duarte* (Texto de apresentação do livro Presença de mulher).

É realmente uma satisfação para nós ver surgir um novo livro de Yasmin Jamil Nadaf. Conhecida pesquisadora do Grupo de Trabalho Mulher e Literatura, da Anpoll, ela tem se destacado pela importante divulgação que realiza das mulheres escritoras e da literatura de Mato Grosso. Seu primeiro livro configurou-se em uma grata surpresa por revelar – a nível nacional – a longa e profícua existência de A Violeta, o periódico do Grêmio Literário Júlia Lopes, que circulou em Cuiabá de 1916 a 1950. Depois ela nos brindou com a publicação de um interessante estudo sobre o folhetim nos jornais de Mato Grosso, nos séculos XIX e XX, intitulado Rodapé das miscelâneas, em que detectava, com muita competência, os primórdios da literatura em seu Estado natal. Em seguida, foi a vez de Diálogo da escrita, em que examina a colaboração de escritores alagoanos na imprensa de Mato Grosso.

Nesse momento surge Presença de mulher, em que a autora, atendendo à demanda sempre premente de estudos sobre a temática, reúne textos que tem produzido nos últimos anos para serem apresentados em congressos e simpósios da área de Letras. Trata-se de uma excelente iniciativa, pois o material, que se encontrava inédito ou esparso em publicações de difícil acesso, agora está disponível a quem se interessar pela história literária e cultural de Mato Grosso. E os jovens pesquisadores vão ter a oportunidade não só de conhecer textos instigantes e de enorme valor informativo, que preenchem amplamente as lacunas da historiografia regional, como também de aprender como se faz uma investigação séria, minuciosa e apaixonada, como Yasmin tão bem nos ensina.

São sete os estudos que compõem o livro. O primeiro revela as diferentes formas de organização coletiva praticadas pelas mulheres mato-grossenses ao longo de um século - de 1850 a 1950 – seja à frente de ligas ou de entidades culturais e políticas. Temos aí, notícias dos primeiros periódicos assinados por mulheres, e um importante levantamento de nomes femininos que atesta suas práticas sociais naquele Estado.

O segundo traz à luz notícias de um precioso documento datado de 1896 e assinado por Leopoldina Tavares Portocarrero, que compara o ensino público europeu com o então praticado no país. A autora havia realizado uma viagem de estudos à França, Espanha e Portugal, a convite da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, justamente para observar as novidades no ensino e apresentar sugestões visando melhorar a incipiente educação nacional.

O seguinte, "A escrita de Maria do Carmo de Mello Rego", consiste em interessante estudo a respeito da produção intelectual de uma mulher, que, apesar de nascida no Uruguai, residiu alguns anos em Cuiabá como esposa do presidente da província, e se envolveu profundamente com as coisas da região. Tanto é verdade que os livros que deixou são do maior interesse, pois tratam, sempre de forma culta e sensível, da história, dos costumes e da arte produzida pelos indígenas.

Depois, temos o texto que revela a inusitada (e forte) presença de Júlia Lopes de Almeida no universo literário local, quando seu nome foi dado a um Grêmio que incentivava as jovens ao cultivo da literatura. Neste excelente ensaio, Yasmin transcreve com muita perspicácia inúmeros artigos e diversas cartas, até então desconhecidas do público, que bem revelam a amizade existente entre a consagrada escritora e as autoras de Mato Grosso. 

Em "A poética das escritoras mato-grossenses na primeira metade do século XX", temos uma leitura da revista A Violeta, já mencionada, celeiro por excelência das nascentes iniciativas literárias femininas. A autora, muito argutamente, chama a atenção dos leitores para o fato de a maioria dos textos se identificarem com a estética romântica, apesar de escritos nas primeiras décadas do século XX. Não custa observar que fato semelhante – esta espécie de romantismo tardio e anacrônico - ocorreu também com escritoras de outras regiões, pois eram enormes os preconceitos que cerceavam a vida das mulheres e inúmeras as limitações da educação a que tinham acesso.

Em "Escritoras em busca de paz e da fraternidade entre os povos da América", temos a leitura do surpreendente periódico Novo Mundo, criado em 1945 em Guiratinga com o firme propósito de fortalecer o pacifismo na América. A ensaísta explora com sensibilidade as diferentes formas de participação das escritoras, transcrevendo poemas, relacionando seus nomes, valorizando, enfim, a iniciativa e o desejo de cada uma em contribuir para o fortalecimento da paz.  

E, por fim, o último ensaio, que trata especificamente da literatura mato-grossense de autoria feminina, de suas primeiras manifestações à contemporaneidade. Este ensaio revela os resultados de uma exaustiva pesquisa realizada em 125 títulos de periódicos (de 1847 a 1969), e nos brinda com importantes páginas sobre a participação da mulher na imprensa local. O estudo chega até os nossos dias apontando para nomes de escritoras que hoje ilustram as letras do Estado, permitindo-nos acompanhar a trajetória das mulheres na construção de uma identidade e de uma escrita literária.

Impõe-se ainda falar da cuidadosa e rica bibliografia que acompanha cada um dos capítulos, informando as referências da autora e abrindo novos caminhos para quem se sentir estimulado a seguir pelas veredas generosamente deixadas abertas por Yasmin Nadaf.

Por tudo isso, estou convencida de que este livro, assim como ocorreu com os anteriores, será da maior importância para quem pesquisa a história das mulheres, especialmente as de Mato Grosso, tal é a contribuição substanciosa que ele representa.  

* Constância Lima Duarte é professora da UFRN e UFMG, doutora em Literatura, e autora de vários títulos, entre eles Nísia Floresta: vida e obra (Natal: Ed. UFRN, 1995).

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5. Texto de Zahidé Lupinacci Muzart*, na Orelha do livro Presença de mulher.

Yasmin Nadaf é uma militante das letras não somente as de seu estado natal, o Mato Grosso, como também das letras brasileiras. Contribuiu com persistência e, sobretudo, competência, para a divulgação das escritoras de Mato Grosso. Desde seu livro Sob o signo de uma flor: estudo da revista A Violeta, publicado em 1993, e que forneceu tantos subsídios para os estudos sobre mulher e literatura, a escritora cuiabana não parou, multiplicando os títulos publicados a partir de suas pesquisas. O livro Rodapé das miscelâneas, resultado de intensa investigação, é um estudo alentado do folhetim. Neste ensaio, Yasmin Nadaf segue o caminho já trilhado pelo livro anterior sobre periódicos e analisa um corpus extenso, seguido de preciosos e úteis índices remissivos, referente a mais de cem anos de folhetins publicados na França, Rio de Janeiro e Mato Grosso, entre os anos de 1839 a 1950.

No presente livro, Yasmin estuda escritoras do século XIX e XX, sempre procurando privilegiar as mulheres de seu estado natal. Entre essas, destaco a escritora Maria do Carmo de Mello Rego que deixou alguns livros muito interessantes como Guido, publicado em 1895, e Lembranças de Matto Grosso, em 1897. Na sua busca persistente por escritoras esquecidas, Yasmin recuperou a trajetória de Maria do Carmo de Mello Rego, estudo que inclui no presente livro. Também estudou a escritora Júlia Lopes de Almeida que colaborou intensamente com a revista A Violeta. Yasmin mostra o intercâmbio entre a escritora consagrada e as escritoras de Mato Grosso que fundaram o Grêmio Literário Júlia Lopes, em 1916. O artigo que trata do intercâmbio Júlia Lopes x escritoras mato-grossenses é da maior importância para pesquisas sobre a grande dama da literatura brasileira. Além desses artigos, também devo assinalar o importante levantamento de nomes de escritoras de Mato Grosso e a composição de seus verbetes, não só do século XIX, com ênfase nas escritoras Maria do Carmo de Mello Rego, Baronesa de Villa Maria e Leopoldina Tavares Portocarrero como de muitas do século XX agora resgatadas do esquecimento em que permaneciam.

O livro que ora publica Yasmin Nadaf é uma contribuição muito importante, trazendo subsídios para os estudiosos da linha de pesquisa Mulher e Literatura.

* Zahidé Lupinacci Muzart é professora da UFSC, doutora em Literatura, diretora da Editora Mulheres, de Santa Catarina, e organizadora da Antologia Escritoras brasileiras do século XIX, em 3 v.

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6. Ressurreições, Lucinda Persona*, no Caderno Folha3 do jornal Folha do Estado, de Cuiabá, MT, em 13/05/2007.

Perceber, a cada instante, o mundo que nos rodeia, os outros seres, os objetos, as coisas, os fatos do presente e do passado e querer, de um modo ou de outro, comunicar as impressões, faz parte da índole humana. E nem é necessário adentrar nas explicações psicológicas do mundo para concluir que navegamos num presente que contém o passado e o futuro.

Num desses dias de outono, à semelhança do principal personagem machadiano no romance Ressurreição, levantei-me tarde, abri janelas, cumprimentei o sol e vi que o dia surgira esplêndido. Nada impede que eu diga, animada pelo romance e com a licença do bruxo de Cosme Velho, que no meu bairro soprava uma brisa fresca, vinda, não do mar que aqui não tem, mas do sul. Foi o que me pareceu.

De fato, nessa continuidade do tempo, o meio do ano em Mato Grosso reveste-se de atraentes fórmulas e toda manhã é um ressuscitar de belezas. Na decisão de escrever esta resenha (pois de resenha se trata) percebi que não poderia abrir mão desse preâmbulo e nem do título dado, tendo em vista a natureza da obra a ser comentada e as suas motivações.

Quando se deseja falar sobre um novo livro no cenário, busca-se basicamente responder ao seguinte: de que assunto se trata? Assim, sem querer precipitar nenhum fato, informo que o livro tem por título Machado de Assis em Mato Grosso (Rio de Janeiro: Lidador, 2006). Trata-se de uma coletânea de textos críticos da primeira metade do século XX, pesquisada e organizada pela escritora Yasmin Nadaf, que acrescenta à obra uma introdução de sua autoria, tecendo considerações sobre o conteúdo e frisando seu compromisso de trazer à tona a memória literária.

O livro é uma coletânea que interessa não apenas aos estudantes e professores das letras, aos historiadores da literatura, biógrafos e críticos, mas a todos os adoradores de literatura e adoradores de Machado de Assis, categoria na qual me sinto também inserida, desde os primeiros anos escolares, quando amiúde mergulhava nos romances desse escritor, acomodada num desgastado sofá estilo americano, cercada de outros objetos inesquecíveis, numa sala imune aos ruídos e totalmente fora das horas.

Sem dúvida, toda pesquisa em torno de Machado de Assis faz saltar aos olhos uma larga e abundante memória, uma vasta gama de estudos que saem dos domínios nacionais e vão muito além, em outros continentes. Por isso, entre várias perguntas havia uma: qual a repercussão de Machado de Assis em Mato Grosso, nas cinco primeiras décadas do século XX? De que modo sua escrita tomou parte ativa nas tramas da escrita aqui neste centro do mapa brasileiro?

Tais indagações podem ser atendidas no trabalho de Yasmin Nadaf. Os textos reunidos no livro expressam informações específicas a Machado de Assis. Todos de muito significado para a compreensão da repercussão da obra machadiana em Mato Grosso. A simples verificação do sumário mostra como são múltiplas as abordagens e como a autora/organizadora cuidou em propiciar uma visão da real ambiência histórico-crítica, oferecendo aos leitores um panorama intelectual da época, de acordo com uma ordem cronológica das publicações.

O resultado da leitura é um conjunto de dados e fatos entrelaçados a um jogo luminoso de impressões. A satisfação é enorme quando se mergulha no texto “Na pista de Rocinante”, do admirável Cesário Neto, que traçou com veemência e exuberância as linhas de defesa a Machado de Assis perante acusações de um crítico da época. Também primoroso é o texto “O humorismo na obra de Machado de Assis”, assinado pelo fluente e brilhante escritor Gervásio Leite. E é justamente da fala desse ilustre mato-grossense que me valho agora para dizer: “pouco é o tempo para vos mostrar o meu entusiasmo” pela coletânea e pelos predicados dos textos de outros eminentes autores que ali estão como: Cesário Prado, José de Mesquita, Virgílio Corrêa Filho, Maria Dimpina, Amidicis Diogo Tocantins e Antônio Arruda.

Finalizando, imbuída da necessária objetividade, faço maior o prazer de cumprimentar a pesquisadora Yasmin Nadaf, sempre em fina sintonia com a memória literária, principalmente mato-grossense, resgatando e compilando tantas preciosidades que se acham dispersas nos baús da história, provocando aqui e ali as mais gratas ressurreições.

* Lucinda Persona é escritora, bióloga e professora da UFMT e da Unic. Entre seus livros publicou Por imenso gosto (São Paulo: Massao Ohno, 1995) e Tempo comum (Rio de Janeiro: 7Letras, 2009).

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7. O ouro da literatura regional, Hélio Taques*, no Caderno DC Cultura do jornal Diário de Cuiabá, de Cuiabá, MT, em 12/10/20087.

A maior crítica literária de Mato Grosso amplia os olhos dos docentes deste estado num curso em comemoração ao centenário da morte de Machado de Assis. O mundo já falou de Machado de Assis, talvez até mais do que o próprio santo que esse poeta carrega no nome. Machado ampliou a arte da boa literatura e com a pena da galhofa e a tinta da melancolia escreveu a matéria íntima da realidade universal.

Yasmin Nadaf faz revisitar Machado, vivenciá-lo, dá brilho as mentes dos professores com sua sabedoria e abre caminhos para o ensino literário nas escolas. John Dewey, grande representante da educação progressista, escreveu certa vez que “o problema do aluno encontra-se na matéria. O do professor é saber o que faz a mente do aluno com a matéria”, e Nadaf sabe fazê-lo tão bem que a cada pincelada que faz de Machado, nossas mentes parecem girassóis que encontram a luz do sol, o tempo-espaço ganha outra dimensão e entramos na alma de Quincas Borba, Capitu, Brás Cubas, e redescobrimos Machado depois de cem anos de sua morte por uma voz doce, uma figura fina, uma sensibilidade literária e um vasto conhecimento de causa, de uma professora que há tempo os próprios professores não viam.

Yasmin é crítica literária, mas parece transcender a figura cética que essas figuras carregam em si e passa a denotar a beleza crítica que poucos possuem além Machado.

Machado e Yasmin estão para a educação e conhecimento como a fé está para Deus: uma relação em que todos ganham, aprendem, vivenciam e reconstroem a forma de ensinar a literatura clássica numa educação que está distorcida, que não valoriza o letramento literário, e faz discursos com educação superficial.

O curso “Re-visitando Machado de Assis no centenário de sua morte” (Palácio da Instrução, de 29 de setembro a 02 de outubro), não foi só um curso, foi uma faculdade que muitos não tiveram. Machado não foi só um poeta estudado, foi à teoria de aprendizado, e Yasmin não foi só uma palestrante, foi a professora no sentido real da palavra: Educação!

* Hélio Taques é professor, ator, diretor teatral e colabora com o DC Ilustrado.

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8. Machado de Assis em Mato Grosso, Adelto Gonçalves*, publicado on-line em Pravda (Rússia) edição em português que é feita em Lisboa, dia 14/07/2009; e em TLAXCALA (rede de tradutores pela diversidade lingüística), dia 15/07/2009.  Impresso nos jornais Diário de Cuiabá (Caderno Ilustrado). Cuiabá, 26/07/2009, p.E3; e Jornal Opção (Caderno Opção Cultural). Goiânia, 26/07 a 01/08/2009, p.1A e 2A. Em Portugal o artigo foi impresso em As Artes entre as Letras, Porto, 29/07/2009, p.8, e Diário dos Açores, Ponta Delgada, 09/08/2009. 

                                                               I

Que a fama de Machado de Assis (1839-1908), ao seu tempo, não se limitou à rede de amigos literatos da Rua do Ouvidor já se sabia, ainda que não tenham sido muitos os seus leitores, levando-se em conta a precariedade dos meios gráficos e difusão do Brasil do final do século XIX e início do XX, como mostrou Hélio de Seixas Guimarães em Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19 (São Paulo: Nankin Editorial/Edusp, 2004). Mas que essa fama alcançou rincões longínquos do Brasil da primeira metade do século XX é que, de certo modo, surpreende.

É o que se pode constatar, por exemplo, em Machado de Assis em Mato Grosso: textos da primeira metade do século XX (Rio de Janeiro: Lidador, 2006), pesquisa que a professora Yasmin Jamil Nadaf empreendeu em periódicos e obras literárias do Estado de Mato Grosso, extraindo textos que mostram a dimensão da presença do escritor carioca na literatura da região. “São escritos e acontecimentos que norteiam a admiração do público-leitor e dos intelectuais da época que dele receberam grande influência estética”, diz Yasmin, que é doutora em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com pós-doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Dos nove textos reunidos, dois são de autoria de José de Mesquita (1892-1961), advogado formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, de São Paulo, professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito de Cuiabá e desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso de 1930 a 1940, que exerceu grande atividade intelectual no Estado, tendo fundado e presidido a Academia Mato-grossense de Letras de 1921 a 1961, com extensa obra de poesia, contos e romances, além de livros na área jurídica.

II

Em “De Lívia a dona Carmo. As mulheres em Machado de Assis”, tese apresentada ao 2º Congresso das Academias e dos Intelectuais do Brasil, no Rio de Janeiro, e publicada na Revista da Academia Mato-grossense de Letras (Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, nº XIII-XIV, 1939), Mesquita contesta a afirmação do crítico literário Alfredo Pujol (1865-1930) segundo o qual as criações femininas do escritor seriam todas “criaturas sem ternura, mulheres hesitantes e pérfidas”. Para Mesquita, pelo contrário, as heroínas machadianas seriam “tímidas, discretas e, no mais das vezes, até virtuosas”.

Como argumento, o ensaísta cita as figuras de dona Carmo, “em que o autor de Memorial de Aires retratou a própria esposa”, Flora de Esaú e Jacó, Maria Regina de “Trio em lá menor” e Conceição de “Missa do galo”, que seriam “criações suaves, doces, quase vaporosas". Mesmo as pecadoras, como Virgília e Capitu, diz Mesquita, são envolvidas por Machado de Assis “dum halo de discrição”, velando de suavidades seus deslizes, como se preparasse, “em torno delas, um ambiente de indulgência”.

Já na crônica extraída de sua coluna “Livros de minha estante”, que era publicada na revista A Cruz, órgão da Liga Social Católica Brasileira de Mato Grosso (Cuiabá, nº 1.407, de 1 out.1939, p.2), Mesquita tece rasgados elogios ao livro O pensamento e a expressão em Machado de Assis, de Cândido Jucá, filho (1900-1982), da Academia Carioca de Letras, ensaio de quase 200 páginas, ao mesmo tempo em que faz uma profecia que os anos se encarregariam de confirmar, ao vaticinar que os críticos jamais esgotariam os temas que a obra machadiana pode suscitar.

III

Outro ensaio exumado pela professora Yasmin é “Na pista do Rocinante (resposta ao Sr.Luís Murat)”, de Cesário Neto (1902-1979), publicado na Revista do Centro Mato-grossense de Letras (Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, nº XIV, jul-dez.1928, p.69-102). Professor de Latim, Português, Francês, Espanhol e Alemão, com passagens pela Faculdade de Ciências de Campinas e pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, o cuiabano Antônio Cesário de Figueiredo Neto teve uma vida dedicada ao magistério: foi ainda professor de Psicologia Educacional na Escola Normal Pedro Celestino e professor de Português do Liceu Cuiabano, em Cuiabá.

Em seu extenso ensaio, Cesário Neto revolta-se com as considerações do acadêmico Luís Murat (1861-1920) expostas em dois artigos publicados pela Revista da Academia Brasileira de Letras em junho e outubro de 1926 sob o título “Machado de Assis e Joaquim Nabuco”, acusando-o de exercitar uma “crítica odiosa, feita de exclusivismo, de caprichos e rancores pessoais, de jacobinismo enfim”.

Segundo Cesário Neto, a mais forte das possíveis razões arroladas por Murat para insultar Machado de Assis era a de que o escritor não teria participado da campanha pela abolição da escravatura, embora fosse neto de escravos. “Que culpa iria ao grande Machado de Assis de não possuir aquele temperamento de fogo que o Sr. Murat exalta nos campeadores da libertação e reconhece em si próprio?”, questiona Cesário Neto.

Para o ensaísta, Machado de Assis, que deixou páginas modelares em contos, como “O caso da vara”, “O vergalho” e “Pai contra mãe” , em que se percebe um vivo sentimento de piedade e de contida revolta contra a eterna injustiça dos homens, não poderia ser acusado de indiferente e insensível à sorte dos escravos africanos. Por isso, ainda lembrou que, no dia 13 de maio de 1888, o escritor teve a oportunidade de dar expansão ao seu entusiasmo e ao seu alvoroço ingênuo, como testemunhou Graça Aranha (1868-1931), ao sair em companhia de abolicionistas exaltados em um carro que o levou até as portas da Câmara, onde romperam em aclamações a Joaquim Nabuco (1849-1910) e outros batalhadores da grande cruzada.

Cesário Neto fez ainda questão de reproduzir um trecho de uma crônica publicada na Gazeta de Notícias em que Machado de Assis, naquele seu ar característico de nonchalence montaigniana, recordou aquele dia: “Sim, também eu saí à rua, eu o mais encolhido dos caramujos, também eu entrei no préstito, em carruagem aberta, se me fazem favor, hóspede de um gordo amigo ausente; todos respiravam felicidade, tudo era delírio, verdadeiramente foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto”.

IV

Autora de outros livros que fazem o resgate da vida literária em Mato Grosso, como Sob o signo de uma flor. Estudo de A Violeta, publicação do Grêmio Literário Júlia Lopes, de 1916 a 1950 (Rio de Janeiro: Sete Letras, 1993), Rodapé das miscelâneas. O folhetim nos jornais de Mato Grosso: séculos XIX e XX (Rio de Janeiro: Sete Letras, 2002), Diálogo da escrita. Alagoanos na imprensa de Mato Grosso; primeira metade do século XX (Rio de Janeiro: Editora Lidador, 2003) e Presença de mulher: ensaios (Rio de Janeiro: Editora Lidador, 2004), a professora Yasmin lembra que nos textos críticos que reuniu em Machado de Assis em Mato Grosso “emana a certeza de que o escritor carioca não foi somente lido e apreciado, como também descrito esteticamente, por vezes de modo minucioso, através de análises alentadas de sua vida e obra”.

Seria muito auspicioso para a memória literária do Brasil que pesquisadores de outros Estados se inspirassem na iniciativa da professora Yasmin, procurando demarcar a influência e a presença de Machado de Assis na atividade literária de outras regiões brasileiras, especialmente na primeira metade do século XX. Eis aqui um bom tema de pesquisa à espera do trabalho de nossos futuros historiadores literários.

* Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

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9. Nos arquivos da memória literária, Luiz Roberto Cairo* (Texto de apresentação do livro Estudos literários em livros, jornais e revistas).

Esta coletânea de textos organizada por Yasmin Jamil Nadaf articula ensaios de sua autoria: alguns inéditos, outros apresentados em eventos acadêmicos nacionais, ou impressos em periódicos científicos e jornais como o importante Suplemento Literário do Minas Gerais.

Leitora sensível, com vocação de historiadora e espírito crítico refinado e aguçado, desde cedo desenvolveu o gosto pelo garimpo de preciosidades literárias deixadas à margem do cânone tanto da história da literatura brasileira quanto da mato-grossense.

Natural de Cuiabá tomou a si a tarefa de rastrear a produção dos periódicos literários do seu Estado, colocando-se como legítima porta-voz da cultura mato-grossense ao resgatar e divulgar, nacionalmente, a partir de projetos pesquisa de enorme fôlego, produções fundamentais como a que resultou na sua dissertação de Mestrado orientada por Carlos Erivany Fantinatti, docente exemplar da Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho. Sob o signo de uma flor, título da dissertação, publicada em 1993, pela Editora Sette Letras do Rio de Janeiro, trouxe à tona a produção das vozes femininas d’A Violeta, periódico cultural feminino do Grêmio Literário Júlia Lopes, que circulou, entre 1916 e 1950, em Cuiabá.

Poucos anos se passaram e Yasmin Jamil Nadaf procurou-me, no Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho, para orientar projeto de tese de Doutorado mais ambicioso sobre a divulgação da produção literária em folhetim, no Brasil, do século XIX e da primeira metade do século XX, no Jornal do Commercio e na Gazeta de Notícias, periódicos que circularam no Rio de Janeiro, e principalmente, de sua reprodução e conseqüente divulgação em jornais do Mato Grosso. Tese esta que resultou mais tarde no livro Rodapé das miscelâneas, hoje, ao lado do clássico Folhetim: uma história, de Marlyse Meyer, uma referência para todos os pesquisadores do folhetim no Brasil. O espírito jovem e inquieto da pesquisadora a conduziu, logo em seguida, sob a supervisão segura do comparatista Eduardo de Faria Coutinho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a um projeto de Pós-doutorado sobre Novo Mundo, um interessante e pouco conhecido periódico, idealizado pelo escritor Raimundo Maranhão Ayres, com o objetivo de difundir a fraternidade intelectual e humana, bem como a cultura entre os povos das três Américas.

Novo Mundo foi editado na pequena cidade de Guiratinga, no sertão de Mato Grosso, entre 1945 e 1954, tendo circulado em mais de cinquenta países com a colaboração de escritores mato-grossenses, brasileiros e principalmente hispano-americanos, daí ser conhecido como um jornal de linguagem sem fronteiras.

Assim Yasmin Jamil Nadaf se tornou conhecida e respeitada nos meios acadêmicos nacionais oferecendo-nos sempre em cada novo livro leituras curiosas apoiadas certamente no faro refinado de rastreadora de acervos de bibliotecas e arquivos de valiosos e pouco conhecidos papéis antigos.

Estudos literários em Livros, Jornais e Revistas, coletânea de ensaios com que agora nos presenteia, recupera textos de sua produção do tempo em que desenvolveu os projetos anteriormente nomeados como “A escrita de Maria Dimpina na revista A Violeta”, “Rocambole e a picaresca espanhola”, “A transgressão no folhetim de Mato Grosso e seus responsáveis”, “Novo Mundo: um jornal de linguagem sem fronteiras”, oferecendo-nos ainda leituras de autores canônicos do século XX – Graciliano Ramos e Érico Veríssimo – bem como do contemporâneo e sempre bem vindo Dalton Trevisan,  brindando-nos finalmente com uma valiosa excursão literária em “Os livros da estante de José Mesquita”, onde com maestria divulga as crônicas deste escritor, concomitantemente, mapeando os caminhos dos livros no Brasil.

* Luiz Roberto Cairo é professor da Unesp, doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada, e autor de vários títulos, entre eles O salto por cima da própria sombra (São Paulo: Annablume, 1996).

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10. A generosidade de uma pesquisadora, Marta Cocco*, no Caderno Folha3 do jornal Folha do Estado, de Cuiabá, MT, em 22/09/2009, e no Caderno Ilustrado do jornal Diário de Cuiabá, de Cuiabá, MT, em 02/10/2009.

É comum virmos a público para manifestar nossa opinião diante de lançamentos de livros, filmes e outros produtos, mas, salvo engano, raramente as pessoas se posicionam diante da divulgação de resultados de pesquisa, uma das atividades mais importantes da vida humana. Sem pesquisa, não há descobertas, não há avanços, não há compreensão nem interpretação dos fenômenos da vida.  Pois bem, feita essa constatação e sem a pretensão de reparar a injustiça pelo que deixamos de reconhecer no trabalho de tantos pesquisadores, quero falar sobre o trabalho da Drª Yasmin Nadaf.

Yasmin é uma das pioneiras no estudo de aspectos humanos da vida mato-grossense. Além de guardar cuidadosamente inúmeras publicações e ser, portanto, dona de rico acervo, buscou em bibliotecas de outras regiões do país documentos, jornais, livros, revistas que contivessem algo referente ao que se produziu na esfera da escrita, especialmente a literária, em vários momentos da história de Mato Grosso. Um trabalho árduo que exige perseverança, dedicação e um olhar muito atento. E o mais importante: Yasmin fez tudo isso sem o vínculo institucional que faria desse um trabalho de praxe. Foi por conta própria, pela consciência do valor que possui, para um povo, a recuperação da sua memória. Hoje, muitos professores universitários buscam no acervo de Yasmin e nos livros de sua autoria - fruto de suas pesquisas - o material necessário para realizarem outras investigações. Dessa forma, seu trabalho torna-se ainda mais importante pelos desdobramentos que gera.

Recentemente Yasmin brindou-nos com mais uma iniciativa louvável. Organizou o seu acervo e publicou-o na internet, num sítio cujo endereço é http://www.yasminnadaf.com.br/. Nele estão sua trajetória, o currículo, os livros publicados, a fortuna crítica e todos os títulos de seu acervo, além de endereço para contato. Com esse sítio, Yasmin Nadaf imprimiu definitivamente a marca de sua atitude, algo que já circula nos meios acadêmicos (vários professores da UNEMAT e da UFMT reconhecem): a generosidade.  Generosidade em descobrir, investigar, anotar e depois publicar, tornar acessível a todos.
Acredito que muitos já tenham dito tudo isso pessoalmente à pesquisadora. Dizê-lo, publicamente, agora, é falar (parabenizar e agradecer) em nome de todos.

* Marta Cocco é poeta, professora da Unemat, e pesquisadora do RG-Dicke(CnPQ/UFMT). Entre seus livros publicou Sete dias (Rio de Janeiro: Galo Branco, 2007).

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11. O passado revisitado, Mauro Nicola Povoas* (Texto de apresentação do livro Páginas do passado: ensaios de literatura)

Conheço Yasmin Jamil Nadaf há, pelo menos, quinze anos; primeiro só de nome, depois pessoalmente. Lá pelos idos de 1998, 1999, coletando teses, dissertações, livros e artigos que tratam do periodismo literário no Brasil, visando à escrita de minha dissertação de Mestrado, na PUCRS, sobre a revista porto-alegrense Murmúrios do Guaíba (1870), deparei-me com o estudo de Yasmin sobre A Violeta, órgão de imprensa do Grêmio Literário Júlia Lopes, de Cuiabá, reunido no livro Sob o signo de uma flor, de 1993, que analisa e descreve a revista feminina.

Com o passar dos anos, Yasmin foi lançando outros importantes volumes para quem estuda imprensa e literatura no Brasil. No seu caso específico, sempre olhou minuciosamente para uma tríade de aspectos: o Mato Grosso (muitas vezes abordado nas suas relações com outros estados da federação), a literatura feminina e os periódicos, especificamente os do passado. Os títulos de seus inúmeros livros lançados ao longo dos anos mostram esses três elementos com exatidão: Rodapé das miscelâneas: o folhetim nos jornais de Mato Grosso (séculos XIX e XX) (2002), Diálogo da escrita: alagoanos na imprensa de Mato Grosso (primeira metade do século XX) (2003), Presença de mulher: ensaios (2004), Machado de Assis em Mato Grosso: textos críticos da primeira metade do século XX (2006) e Estudos literários em livros, jornais e revistas (2009).

Ao longo de minha vida acadêmica, se o meu contato com os livros da autora só cresceu, para minha satisfação passei também a encontrar Yasmin em eventos da área dos Estudos Literários pelo Brasil, firmando uma amizade e um respeito mútuos. Foi com prazer, por exemplo, que a recebemos, em 2011, na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), instituição onde atuo, para a participação em uma banca e a realização de uma palestra para os alunos de Letras.

Agora, em seu novo livro, Páginas do passado: ensaios de literatura, Yasmin retoma os assuntos que a preocupam criticamente, revisitando e revitalizando jornais e livros antigos, no momento em que traz à tona conteúdos subsumidos ou pouco explorados, aspecto fundamental para um país que, por vezes, mira o futuro sem a devida atenção à sua memória. Assim, o estado de Mato Grosso, as mulheres e o periodismo, entre outros temas, estão presentes em seis novos ensaios, divididos em três seções, quais sejam: “Literatura França-Brasil”, “Intercâmbio cultural” e “Autores mato-grossenses: homologia entre a vida e a obra”.

A divisão inicial engloba dois textos. O primeiro é “Entreaberto botão, entrefechada rosa: uma leitura dos romances da ‘Coleção Menina e Moça’”, em que é discutida a importância dessa série – mais de quarenta romances franceses lançados sob a chancela da Livraria José Olympio Editora – para a formação de leitoras no Brasil, nas décadas de 1940, 1950 e 1960. Os enredos da coleção variavam entre o detetivesco, presente nos livros da série ‘Sir Jerry Detetive’; o frenético-eletrizante, das tramas rocambolescas envolvendo sequestros, incêndios e naufrágios, manifesto em A herdeira de Ferlac; ou o comportamental-moralizante, das histórias de crianças pobres que ascendem socialmente, graças a uma postura adequada, como se vê em Nanette, a acendedora de lampiões. Em todos os casos, a presença do final feliz era um componente que não podia faltar em histórias que eram destinadas, na sua maioria, a meninas-moças de 6 a 16 anos.

O segundo ensaio a abordar a relação literária entre o Brasil e a França é “A ficção impressa no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro”, que analisa os romances-folhetins, primordialmente de autores franceses (Alexandre Dumas, Eugène Sue, Ponson du Terrail e Émile Richebourg, entre outros), publicados no rodapé do periódico fluminense. Direcionando a sua pesquisa nos anos de 1827 a 1950, a autora lista vários desses romances-folhetins, estampados ao longo de um século, de 1839 até o final da década de 1930, momento em que esse tipo de publicação começa a escassear, reflexo da perda de espaço da literatura nos jornais diários.

O próximo bloco traz “Raimundo Maranhão Ayres: um intelectual coletivo em meio ao sertão de Mato Grosso” e “Discursos cruzados: letras sul-rio-grandenses na imprensa de Mato Grosso”, artigos que apostam no entrelaçamento de Mato Grosso com o Nordeste e o Sul do Brasil. O Nordeste aparece na figura de Raimundo Maranhão Ayres, maranhense de nascimento que se radica em Mato Grosso. Fazendo alusão a dados de sua vida e obra, Yasmin situa a relevância do autor no contexto da literatura brasileira, além de destacar o jornal Novo Mundo, fundado e dirigido por Ayres em Guiratinga-MT, cidade em que residia. Primeiro com o epíteto de “Órgão de Intercâmbio Cultural em Todas as Américas”, posteriormente “Órgão de Intercâmbio Cultural em Todas as Américas e Europa”, o periódico lutou pela coletividade pan-americana e fomentou a vida literária da região, de dezembro de 1945 a 1954.

Já o Sul afigura-se em artigo de muito interesse para quem, como eu, estuda a literatura sul-rio-grandense. Uma carta da escritora gaúcha Hecilda Clark Ferreira à sua conterrânea Matilde de Almeida – em que cita, entre outros aspectos, a leitura contumaz d’A Violeta (1916-1950), revista mato-grossense dirigida por muitos anos por Maria Dimpina – é o estopim para o desvelamento de uma rede frutífera de relações entre Mato Grosso e Rio Grande do Sul, ao longo do século XX, por meio de poemas e críticas de e/ou sobre, entre outros, Alzira Freitas Tacques, Andradina de Oliveira, Delfina Benigna da Cunha, Julieta de Melo Monteiro, Walter Spalding e Zeferino Brasil, publicados nos já citados periódicos A Violeta e Novo Mundo.

Por fim, o terceiro grupo de textos contém “A expressão católica na obra de Feliciano Galdino” e “Crucina, de José de Mesquita”. É uma seleção que contempla dois autores de Mato Grosso, Feliciano Galdino e José de Mesquita, estabelecendo uma homologia entre a vida e a obra de ambos, pautadas pelo Catolicismo. Galdino, católico fervoroso, foi redator e colaborador, até o ano de sua morte, em 1938, do jornal cuiabano A Cruz (1910-1969), editado pela Liga Social Católica Brasileira de Mato Grosso; aí, publicou discursos, contos e novelas, sempre veiculando ideais cristãos. Também divulgou a sua prosa doutrinária em livros, como Luz e sombras, volume que inaugura o gênero romanesco nas letras mato-grossenses.

Mesquita, por sua vez, constitui-se em escritor profícuo no estado do Centro-Oeste, autor de crônicas, contos, poemas e romances. Seu Crucina (Ensaio sobre a mística do sofrimento), editado originalmente em série no rodapé de A Cruz, entre março e julho de 1935, é aqui analisado e republicado. O texto conta a vida de Crucina (1872-1922), personagem cuja trajetória é marcada pela dor, resignação e fé em Deus. Yasmin mostra que Crucina, na verdade, era Maria de Cerqueira Caldas, mãe do autor, o que dá contornos biográficos ao ensaio e ilumina a figura materna, que marcará indelevelmente outras produções de Mesquita, como nas personagens Maria das Graças e Maria do Amparo, da novela Graça, e Maria da Piedade, do romance Piedade, às quais emulam princípios voltados à propagação e à defesa de uma moral conservadora.

Estudiosa infatigável, Yasmin Jamil Nadaf brinda o público em geral, e o acadêmico em especial, com seu novo livro, que explora diversos pontos geográficos nacionais e diferentes nomes de escritores, ultrapassando a dicotomia estabelecida pelo eixo Rio-São Paulo e revelando autores que vão além daqueles canonizados pela historiografia. Por isso, Páginas do passado, nos seis artigos que o compõem, com certeza será mais um volume precioso na estante dos que se interessam pela renovação da história da literatura brasileira sob o enfoque das fontes primárias e dos periódicos literários.

* Mauro Nicola Povoas é professor da FURG, doutor em Letras, e um dos organizadores do livro Literatura, história e Fontes primárias (Curitiba: CRV, 2013)

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Pequenos Fragmentos Críticos

Um dos melhores textos publicados até hoje no Brasil, sobre o romance de Graciliano Ramos, destacadamente sobre São Bernardo (publicado pela primeira vez em 1934), traz o título de “Alto grau de tensão em São Bernardo”, escrito por uma ensaísta brasileira de origem libanesa Yasmin Jamil Nadaf. A autora centraliza a sua tese na convicção de que, através do destino de Paulo Honório (personagem do romance), veremos toda a realidade brasileira nos primeiros decênios deste século.

(Marcus Prado, no Diário de Pernambuco de Recife, em 24/junho/1992)

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Sob o signo de uma flor é uma minuciosa pesquisa que procura trazer à tona o universo da mulher mato-grossense da primeira metade desse século. Através da paciente análise e catalogação da única revista editada por mulheres, intitulada “A Violeta”, publicada pelo Grêmio Literário Júlia Lopes entre aproximadamente 1916 e 1950, na cidade de Cuiabá, a autora aposta na possibilidade de vislumbramento tanto do universo daqueles que a escreviam como daquelas a que se destinava a revista. (...)

Sob o signo de uma flor apresenta uma valiosa investigação da história intelectual feminina no Brasil.

(Revista Estudos Feministas. Publicação da Escola de Comunicação, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. v.2, n.3/1994)

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A literatura mato-grossense ganha um presentão [refere-se ao livro Sob o signo de uma flor]. O nome de Yasmin Jamil Nadaf chega-nos com grande satisfação, porque é uma jovem que se aprofunda nas raízes do nosso Estado, na qualidade de pesquisadora, e traz à luz um manancial até então desconhecido. (...)

Rastreando os passos da cultura da mulher cuiabana, da virada do século até os anos 50, Yasmin re-escreve a história da imprensa e da literatura do nosso Estado; recupera uma parte da história intelectual da mulher no Brasil; e, por fim, dá conhecimento um pouco mais a respeito do feminismo em Mato Grosso, se bem que um feminismo sem os ranços da atualidade. (...)

Ao desnudar o mundo intelectivo da mulher mato-grossense, Yasmin aponta novos caminhos para o futuro. Vale ainda pela boa e relevante aula sobre o que era Cuiabá e as mulheres que aqui viviam na virada do século XX. 

(Marta de Arruda (Da Redação), no Diário de Cuiabá de Cuiabá, em 06/março/1994)

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Agora um outro título vem enriquecer o estudo do folhetim no Brasil. Trata-se de Rodapé das miscelâneas - o folhetim nos jornais de Mato Grosso (séculos XIX e XX) de Yasmin Jamil Nadaf, autora de pioneiro estudo sobre “A Violeta”, revista publicada em Cuiabá por um grupo de mulheres do Grêmio Literário Júlia Lopes, atuante de 1916 a 1950. Neste "Rodapé das miscelâneas", ela investiga o desenvolvimento do novo gênero, não se contentando apenas em recorrer à bibliografia especializada, mas pesquisando jornais importantes do Rio de Janeiro, elencando a ficção encontrada no Jornal do Commercio e na Gazeta de Notícias. Do mesmo modo, vai procurar o "carro-chefe do espaço folhetinesco", do rodapé dos periódicos de Mato Grosso.

A coleção do Jornal do Commercio foi pesquisada com atenção por Yasmin e em seu estudo ela mostra a rápida assimilação que o gênero encontrou não só na Corte, mas também junto ao público. O gênero estimulou as vendas do jornal, que em 1840, com treze anos de existência, encontrou novos segmentos de leitores, ávidos por aventuras e peripécias criadas por folhetinistas franceses e em seguida brasileiros também, como, entre muitos, Martins Pena, o fundador do teatro brasileiro. 

(Cícero Sandroni, no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 20/outubro/2002)

§§

 

Seu livro [Rodapé das miscelâneas] me devolveu ao tempo em que eu devorava A toutinegra do moinho, de Émile Richebourg, e outros folhetins afortunados.

Felicitações pelo seu trabalho que, com tanto brilho e minúcia, visita e analisa uma paragem esquecida de nossa cultura. 

(Lêdo Ivo, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, em correspondência a Yasmin Nadaf. Abril/2003)

§§

 

Muito apreciei o Diálogo da escrita, essa pequena história de alagoanos que viraram letra de forma em Mato Grosso. Felicito-a por iluminar por um instante tantas pequenas escuridões e ir atrás do esvaído e apagado.

(Lêdo Ivo, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, em correspondência a Yasmin Nadaf. Dezembro/2003)

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Nascida em Cuiabá e radicada no Rio de Janeiro, a pesquisadora Yasmin Jamil Nadaf é a autora de um livro que recupera uma passagem preciosa da literatura alagoana. Diálogo da escrita - alagoanos na imprensa de Mato Grosso refaz um trajeto essencial no sentido de registrar a plena atividade das letras caetés em um período onde publicar trabalhos pertencentes aos “clássicos vernáculos” era uma tarefa verdadeiramente hercúlea.

Redescobrindo trabalhos de escritores alagoanos em históricas publicações do meio literário mato-grossense, Diálogo da escrita - alagoanos na imprensa de Mato Grosso documenta a ligação entre esses dois pontos do País – os estados de Mato Grosso e Alagoas – no período correspondente à primeira metade do século XX. As localidades, cujas capitais estão separadas por uma distância de mais de três mil quilômetros, mantiveram um intercâmbio fértil durante muito tempo, refutando a teoria geral de que a produção do setor, na época, escoava apenas para o eixo Rio-São Paulo. (...)

Em Diálogo da Escrita, Yasmin Jamil Nadaf não apenas profere sua análise acerca dos textos advindos de Alagoas, mas oferece, também, comentários sobre os escritores caetés no período em que atuavam em seus respectivos cenários literários. No anexo disposto ao final do livro, a pesquisadora desfila uma seleção de escritos assinados pelos autores da época. 

(Elexsandra Morone (Editora), na Gazeta de Alagoas de Maceió, em 26/fevereiro/2004)

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Mais que um registro histórico ou um tratado literário, o livro [Diálogo da escrita] revela o calor humano que uniu duas províncias marginalizadas durante aquele período [1ª metade do século XX].

A obra de Yasmin Nadaf também volta a unir a cultura dos dois pólos – Alagoas e Mato Grosso – em nome de uma ligação criada em uma época onde até o transporte dos textos era difícil. Hoje, com todas as facilidades oferecidas pela modernidade nada mais justo que proporcionar uma troca de experiências e comentários capazes de nutrir e desenvolver a cultura dos dois estados. 

(Clarissa Veiga (Da redação), no jornal Tribuna de Maceió, em 30/junho/2004)

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Foi na primeira metade do século passado que um pequeno grupo de escritores alagoanos começou a percorrer outros países. Era o periódico “Novo Mundo”, uma publicação nascida na cidade de Guiratinga, no Mato Grosso, a voz de uma geração que ajudou a escrever os versos que dali em diante uniria os dois estados.

Hoje, essa história poética ganha mais um reforço saído da pesquisa minuciosa da professora-doutora Yasmin Nadaf, que lança Diálogo da escrita: alagoanos na imprensa de Mato Grosso. (...) 

Crítica de literatura, Yasmin sabe que esses achados acabam favorecendo as novas gerações a conhecer um passado poético de grande importância para a história cultural do estado. 

(Editoria de Cultura, de O Jornal de Maceió, em 30/junho/2004)

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Utilizando uma linguagem simples e direta própria dos livros didáticos, a Mestre e Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa (pela Unesp) Yasmin Jamil Nadaf apresenta um importante estudo sobre a produção literária feminina dos séculos 19 e 20 em Mato Grosso no livro Presença de mulher. A publicação, composta de sete ensaios, frutos de pesquisas realizadas pela escritora desde a década de 1990, segue a linha de outros dos seus livros já lançados que ressaltam importantes aspectos do fazer literário no Estado.

Pós-doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ, Yasmin dá mais um largo passo no resgate de informações que, não fosse dessa forma, seriam difíceis de ser obtidas. 

(Luiz Fernando Vieira (Da Redação), no jornal A Gazeta de Cuiabá, em 24/novembro/2004)

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No livro Presença de mulher Yasmin recupera o que a história não contou, com o objetivo de fazer justiça à literatura e aos leitores, resgatando a memória e preenchendo lacunas. Ela tenta despertar o interesse do leitor cuiabano para a literatura mato-grossense, sempre fazendo comparações com os literários em âmbito nacional e estrangeiro.

Ao resgatar o século 20, a escritora o divide em duas fases. Uma mais homogênea, com a mesma estética voltada ao romantismo até metade do século, por meio da revista “A Violeta”, maior veículo de expressão cultural feminina.

Na segunda metade do século 20, cada autora começa a escrever sua estética própria. 

(Beatriz Saturnino, no jornal Folha do Estado de Cuiabá, em 26/novembro/2004)

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A escritora mato-grossense Yasmin Jamil Nadaf se dedica ao seu ofício com militância. Mestre e Doutora em Literaturas da Língua Portuguesa, pela Unesp, Yasmin há mais de 20 anos pesquisa sobre escritoras desconhecidas oficialmente pela literatura nacional e juntou mais de 1,5 mil exemplares sobre o tema. No seu quarto livro Presença de mulher, a autora apresenta um estudo destas mulheres atuantes na escrita dos séculos 19 e 20. 

(Fabiana Barbosa (Da reportagem), no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 06/março/2005)

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Em Presença de mulher Yasmin revirou documentos, folhetins e revistas do fim do século XIX e início do século XX para desvendar a escrita das senhoras de Mato Grosso. Suas descobertas revelam a forma como estas viviam, pensavam e a maneira como começaram a buscar espaço na sociedade, se reunindo em entidades, clubes e grêmios literários. (...)

Pós-doutoranda em literatura comparada pela UFRJ, Yasmin trabalha com a produção literária presente nos jornais. E faz esforço para que seus estudos cheguem aos leitores, promovendo a distribuição de Presença de mulher em livrarias cariocas. 

(Renata Magdaleno (Da reportagem), no jornal O Globo do Rio de Janeiro, em 12/março/2005)

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Em nova missão literária, a contumaz defensora das letras, a escritora Yasmin Nadaf, pesquisou e organizou textos críticos que avaliam o reflexo das produções literárias de Machado de Assis na bibliografia mato-grossense. A reunião desses registros deu origem ao livro Machado de Assis em Mato Grosso. (...)

Revisitando a produção literária do Estado, na primeira metade do século 20, que tinha Machado como foco, Yasmin acabou por revisitar também importantes nomes da literatura regional. 

(Lidiane Barros (Da Redação), no jornal Folha do Estado de Cuiabá, em 24/maio/2006)

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Com ele [o livro Machado de Assis em Mato Grosso], a doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela Unesp, inaugura uma nova vertente literária no Estado, a de textos críticos e, a dois anos do centenário da morte de Machado de Assis, coloca o Estado na bibliografia dos trabalhos a respeito desse importante escritor brasileiro que, de tão à frente de seu tempo, seus textos continuam atuais.

Foram dez anos de pesquisa onde a escritora compendiou textos pinçados da literatura mato-grossense a respeito de Machado. Ao todo são nove textos de oito autores, sendo dois de José de Mesquita. (...) A autora primou pela diversidade, não só de autores, mas também de estilos. A obra reúne ensaios, textos críticos e crônicas. 

(Adriana Nascimento (Da Reportagem), no Diário de Cuiabá, em 25/maio/2006)